Quem tem poder em Roraima?

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Dizia o místico René Guenon que “o verdadeiro poder é tanto menos visível
quanto mais efetivo é.” Noutras palavras, o poder corre predominantemente nos
bastidores, ao contrário da imagem pública dos mandatários que a maior parte das pessoas
possui. Em termos mais genéricos, poder é a capacidade de despertar obediência,
fenômeno experimentado passivamente por qualquer cidadão que habita a base da
pirâmide social, paga impostos, cumpre leis, respeita normas que foram definidas por
indivíduos a respeito dos quais não sabe nada.

Quando olhamos para o lavrado roraimense sob a perspectiva do poder, nos
deparamos com um estado historicamente moldado pela economia de contracheque, em
que elementos da máquina pública administram de perto o cálculo da obediência de todos
os demais. Salários do funcionalismo, contratos governamentais e transferências federais
fazem com que a máquina pública se firme como o principal eixo de circulação de renda
e, portanto, o habitat por excelência dos mandatários.

Ao longo das últimas décadas, poucas figuras ilustraram esse fenômeno de forma
tão cristalina quanto Romero Jucá (MDB). Mesmo sem mandato, Jucá mantém o seu naco
de poder intacto. Senador por vários mandatos, líder de governos no Senado e articulador
experiente em Brasília, Jucá construiu um capital político que ultrapassa o simples peso
eleitoral e mantém-se através de uma extensa rede de influências difícil de dimensionar.
Seu poder deriva, antes de tudo, de ampla capacidade de negociação e ação nos bastidores.

O senador Mecias de Jesus (Republicanos) ocupa, hoje, parte do espaço
estratégico de articulação do eixo Brasília–Boa Vista deixado por Romero Jucá. Sua
participação em comissões, articulação de emendas e o acesso ao orçamento federal
transformam o Senado em lugar privilegiado de influência. Em estados como Roraima,
altamente dependentes de transferências da União, a capacidade de intermediar recursos
federais converte-se em instrumento decisivo de poder político. Além disso, seu filho,
Jonathan de Jesus, ocupa o posto de Ministro do Tribunal de Contas, conferindo
hereditariedade ao poder do clã.

No âmbito local, o mando também se revela por meio do domínio sobre as
instituições políticas. Jalser Renier (PTB), ex presidente da Assembleia Legislativa de
Roraima, conseguiu construir uma teia de poder que alcançava vários setores da vida
local, tendo deixado, quando de sua cassação, uma teia pronta nas mãos do deputado
estadual Soldado Sampaio (Republicanos). No espaço de produção das leis, controlar a
pauta, influenciar o orçamento e articular a base parlamentar significa determinar o ritmo
da política e da vida coletiva. Afinal, quem define a agenda define o campo das decisões.
Evidentemente, o poder não se limita à esfera eleitoral. Ainda que num grau
menor, já que a concentração do poder econômico ainda está nas mãos dos políticos, o
setor empresarial começa a desempenhar algum papel na organização da influência.
Nesse sentido, figuras como Helena da Asatur (MDB) permitem ver um tipo distinto de
poder: o poder empresarial organizado. A articulação entre o empresariado e o poder
público, especialmente em áreas estratégicas como turismo, infraestrutura e
desenvolvimento regional, confere peso significativo a quem consegue coordenar
interesses econômicos privados.

Por fim, há o poder exercido exclusivamente nos bastidores, aquele mais difícil
de detectar e tanto por isso mais eficiente. Nesse campo, a influência frequentemente se
constrói pela permanência e capacidade de articulação, de construir longos círculos de
amizades. O ex secretário da Casa Civil Disney Mesquita é um exemplo desse tipo de
atuação. Com presença recorrente na política estadual e vínculos com setores
econômicos, especialmente o agronegócio, sua força deriva menos da exposição pública
e mais da capacidade de intermediar interesses.

O poder real, assim, não se limita aos ocupantes de cargos eletivos. Ele se distribui
por outras esferas da vida social e envolve grandes empresários, líderes religiosos,
controladores de meios de comunicação, membros influentes do Judiciário e do
Ministério Público, comandos das forças de segurança e dirigentes de órgãos federais.
Em contextos como o de Roraima, onde o Estado permanece no centro da vida econômica
e administrativa, a disputa pelo controle dessa engrenagem institucional continua sendo,
em última instância, a própria disputa pelo poder.
O que é muito ruim: quanto maior a concentração do poder no Estado, menores
são as vias de escape fornecidas para a sociedade respirar.

 

Texto escrito por: Professor Luís Munaro